Poesia morta
Domingo, Maio 18, 2008:
Palavra incerta
Trago, lá, no meu peito
a angústia
da palavra incerta,
da rima desfeita,
da métrica morta.
Carrego em meu peito
o sopro de idéias.
Mas
do que me vale
se
sou gente do mundo
e
filho do meu tempo,
estranho a mim
mesmo
em alegrias humanas?
Toco, lá, na costa
da palavra incerta,
angústia sem jeito
cravada no peito.
E talvez não haja
dentro de mim
senão
idéias e palavras
mortas.
Bernardo // 12:01 AM
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Angústia
Ali, onde só meus olhos chegam
— e lá resvalam,
vejo Graciliano,
fechado em seu Angústia.
Penso no que
se há de fazer e de pensar,
de sofrer e de chorar
se não tive, em infância,
as cores inertes,
os bichos calados,
as casas de preces,
os sonhos guardados
e tudo que seria
partes do que não fui
quando me dei à poesia,
aqui, aqui por inteiro,
onde me disfarço e me desculpo
por crimes que enlaço
e pouco cuido,
como se em mim pudesse haver,
além da má poesia,
qualquer inútil e acre paliativo.
E meus olhos
continuam a resvalar
— e a nunca chegar.
Bernardo // 12:00 AM
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Sábado, Maio 17, 2008:
A ternura
Eu quero toda ternura do mundo.
Quero a ternura dos olhos
das crianças e dos velhos.
Aquele vento fresco
que roça as (im)purezas
e que se desfaz em imagens
de futuros e desencontros.
Quero a ternura
dos pequenos olhos
que não vêem o pecado
e que riem ao escorrer
das lágrimas inocentes
que logo se dissipam
no colo
do pai, da mãe ou
de algum outro gigante.
Ah! Como eu quero essa ternura!
Deus do céu!
A ternura dos velhos
que contemplam as pegadas
que marcaram
a estepe de sua existência
como se não fossem suas,
mas de uma criança
a caminhar incessantemente
em direção a Deus.
Deus do céu!
Bernardo // 10:29 PM
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Os possuídos
Chove suavemente
nas calçadas dos meus olhos.
E nós, os possuídos
pela má poesia,
escrevemos,
com amor e ódio
fatigados,
no silêncio da noite branda,
o olhar cansado
de algum Deus
a chorar.
E nalgum tempo próximo
da chuva,
possuídos pelos grandes
livros
do nosso existir,
caminhamos sobre
brasas azuis,
pés forrados então
por pétalas trespassadas
de espinhos,
corpos imaculadamente
inertes,
rostos banhados
de ternura
pelo poema que,
em solidão,
nasce e morre
a chorar.
O mundo,
sob inundações diversas,
está alheio à poesia.
Possuídos pelo desejo
do amanhã,
construímos palavras
vazias
para nelas guardar
todas as lágrimas
do mundo a chorar.
Chove torrencialmente
nos jardins dos meus olhos.
Chove. Nasce. Morre.
O mundo é intransitivo
para nós, os possuídos.
Bernardo // 10:27 PM
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O grito dos normais
Meus versos nascem
do silêncio que sufoca
o grito dos normais.
Não voltarei
às palavras felizes,
às cantigas alegres
do amor conhecido.
Quero amar cada imagem
destituída de luz e calor.
Os mortos não amam,
apenas caminham
nas brancas páginas
do meu silêncio.
Os mortos não escrevem
a poesia do retorno
à vida dos normais,
apenas morrem
(pela vigésima nona vez)
na ternura que relego
aos normais,
aos incansáveis homens
normais.
Bernardo // 10:23 PM
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Sonhar não basta
Sonhar não basta
a quem traz nos olhos
a morte da poesia.
Melhor é abraçar-se
às pedras do caminho,
e nos fachos de luz
quedar-se em silêncio,
destilar-se nos intervalos
das palavras
que sugerem a poesia morta
dos olhos
que sonham o que não basta.
Bernardo // 10:22 PM
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Lamento desgastado
Tragam-me o passado,
todos os rostos,
os gigantes da eterna infância
dos meus olhos.
Tragam-me aquelas paisagens
nas quais fui apresentado
ao novo mundo
do meu antigo Deus.
Tragam-me os desejos
e todas as Marias,
de camas e de rezas.
Tragam-me o que se perdeu,
tudo que esqueci
quando me tornei ateu.
Tragam, sem demora,
a vida,
a criança
que está envelhecendo
sem lágrimas,
sem o riso,
sem aquela brincadeira
de sempre ser feliz
a reinar no coração
e a não se prender
à tristeza
de contemplar o futuro
branco
da vida, que não é outra senão
aquela
que imploro
para que ma tragam
e me devolvam
aquilo
que não pude reter
e nada deixou
além desse lamento desgastado,
morto a todas as esperanças
de voltar, de curvar-se ao futuro
por nada existir no presente
que dignifique o passado.
Bernardo // 10:21 PM
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Gigantes
Em outro tempo
eu era pequeno,
tão pequeno que via gigantes.
Havia crianças escondidas
para eu procurar.
Havia primos, primas
e uma infinidade
de tias alegres.
Eu tinha férias
e o sítio e meu avô...
Eu tinha uma namorada
que nunca beijei.
Pesadelos que logo esquecia.
Eu tinha Deus
que me escutava.
Em outro tempo eu era pequeno,
tão pequeno que via gigantes.
Bernardo // 10:18 PM
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Meu poema
Meu poema não canta,
não diz, não mostra.
Às vezes caminha
insanamente
à escuridão
do ontem.
Às vezes regressa
da escuridão
do amanhã.
Às vezes dorme.
Às vezes morre.
Bernardo // 4:45 AM
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Coisas
Vivem aqui, ao meu lado,
coisas que não me sentem,
não me vêem, nem me ouvem.
E elas parecem tão satisfeitas
na imobilidade dessa vida,
dessa brincadeira de gente e coisas.
Há, ao meu redor,
coisas de cores.
E o ambiente difuso
acolhe-as como um pai
acolhe a um filho.
E nós não sabemos acolher nossos filhos.
(A idéia é sempre perfeita.)
Abriga-se, aqui,
um certo resto de vida, mais vivo que eu,
que meu coração
que ainda não parou.
E é inevitável
crer que estamos vivos
tão somente para contar
que as coisas estão mortas.
Bernardo // 4:23 AM
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